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terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Feliz natal, por que?

Nesses dias próximos ao Natal, deve ter muita gente questionando essas convenções de fim de ano que nos impõem sem muita reflexão... Não sei qual consideram pior, se a do "nascimento de Jesus", a do papai noel, ou a que mistura os dois dizendo que o "nascimento de Jesus" é a garantia dos melhores presentes e de bons fluídos para um "próspero ano novo"... O problema disso é a espetacularização imaginária de uma realidade muito mais profunda do que nossa parca visão das coisas... E, por isso, realmente devemos questionar algumas "crenças"... Neste sentido, o questionamento que eu levantaria aqui não seria tanto sobre a comercialização espetacular do natal. Mas sobre o que chamam de "o sentido do natal": o nascimento de Jesus. Isso tem algum sentido mesmo? Ou é mais uma historinha inventada pelo fenômeno da religião? Não que eu desconfie dos registros bíblicos (assim como não desconfio dos registros de Newton sobre a Lei da Gravidade). Mas que sentido tem aqueles relatos de que Jesus era o próprio Deus que veio à terra? Aliás... Deus existe? E se sim, pra que ele veio? Por que Cristianismo? É difícil responder às questões num pequeno texto de blog. E se você espera que eu responda, desista da leitura e não volte antes que esteja disposto a encontrar suas próprias respostas. Mas nunca desista de encontrar uma resposta que faça sentido aos seus questionamentos.

Sobre a existência de Deus, nossas argumentações humanas nunca serão capazes de descrever ou comprová-la. Isso porque ele é justamente aquilo que está além da nossa capacidade de entendimento (e não compreendemos tudo!). Mas é curioso notar que esta existência inintendível está bem diante de nós, marcando cada pulso do coração e dando misteriosos sentidos à nossa racionalidade... Não numa forma mística, paranormal, numa realidade alheia à nossa. O espaço infinito acima da minha cabeça, a eternidade do tempo (no futuro e no passado), a harmonia da natureza e os mistérios da razão, que é muito mais inteligível do que as reações físico-químicas que ocorrem no meu cérebro, revelam assombrosamene a existência desta divindade, e em constante relação com minha materialidade. Mais do que isso, revelam a insignificância da nossa condição material (afinal, do que é feita a nossa matéria?). E é justamente por esta incapacidade de entendimento da "existência" é que sou levado a crer. Não como um covarde que desista de pensar. Crer, na verdade, é um ato de humildade do que pensa e reconhece seus próprios limites. Pensar nessas coisas nos causa um confronto que reduz nossa "enorme" existência à uma miserabilidade desgraçada... E reconhecer-nos esta condição nos aproxima do Deus que é, ele próprio, a Existência. Pense bem: a partir do reconhecimento desta condição pífia da nossa humanidade é que nos relacionamos com Deus. Não reconhecer isso é orgulho insano, do qual se originam os maiores males da humanidade. É como se esse computador que você usa agora se rebelasse contra você e resolvesse pensar por conta própria, querendo produzir seus próprios textos, criar ideologias próprias, buscar seus próprios prazeres e suas próprias fontes de energia... tudo para a exaltação de sí mesmo, pobre computador... Pois esta é a nossa pobre condição humana, sem aceitar nossa miserabilidade... Nesta condição, o questionamento maior seria: o que será de nós? E a partir disso podemos pensar em alguma verdade sobre o cristianismo.

                                                       NATAL: Rembrandt

O que será de mim nessa vida esfumaçada, num universo tão limitado, com um tempo tão curto que me faz sentir-me dissolvendo como um castelinho de areia sob uma garoa constante...? E tendo eu uma tendência tão rebelde...? O que seria daquele computador se não pudesse voltar atrás em sua rebeldia?... Nos voltamos, então, aos registros históricos onde se relata a materialização daquela "Coisa Eterna" e incompreensível, a encarnação daquele Ser de onde vem o sentido das nossas "razões". A Existência, em sua plenitude, manifestou-se em forma humana para nos mostrar em nossa própria linguagem o que é a esperança, o bem, ou o que é o amor que nos move... É isso que ocorreu na concepção sobrenatural de Jesus, o Cristo. E isso é celebrado no Natal. A Eternidade que se materializou para nos mostrar quão pobre é a nossa noção de "bem", e, portanto, quão insaciáveis nós somos, em nós mesmos... Não acredito que isso seja apenas mais uma doutrina religiosa, ou uma filosofia qualquer, inventada por algum homem, algum dia, que o permitisse se sobre-afirmar numa estratégia engenhosa de dominação... Na verdade, o cristianismo é a maior afronta à dominação humana, uma vez que diante dele somos todos duramente confrontados por nossa incapacidade, e chamados ao serviço, à rendição e à subordinação (por mais que os homens insistam em deturpá-lo). E esta condição de subordinação é que dá sentido à nossa existência, sem que possamos fazer qualquer esforço pra isso, sem mérito humano algum... A Graça, um favor imerecido do Deus Eterno que se aproxima de nós para nos resgatar desta condição lastimável, é a verdade do cristianismo celebrada no Natal. O reconhecimetno da miserabilidade humana e da incapacidade de auto-sustentação subordina todos, igualmente, integralmente, humildemente e inevitavelmente à existência do Bem e da Eternidade de Deus. Ainda "bem"!

Ainda bem que não nos bastamos em nós mesmos, e que há algo mais eterno do que esta minha efemeridade sem sentido... Ainda bem que a justiça não se consolidará por nossas mãos tão sujas... Ainda bem que a esperança nos foi revelada! Ainda bem que a nossa rebeldia é perdoada... E ainda bem que eu tenho a chance de voltar atrás e reconhecer que não há sentido em minha auto-suficiência... Ainda bem que Jesus nasceu... (Obrigado, Deus...). E aos meus fraternos, que comungam comigo deste desejo, desta esperança... e com quem exercito diariamente aquele amor revelado, eu quero que celebrem felizes o natal... Feliz natal!

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

O Natal por trás dos morros...

 
Chegando o Natal, a gente fica empolgado andando pelas cidades enfeitadas, por centros comerciais tão atrativos, e recebendo tantos bons desejos dos amigos: "Boas festas! Feliz Natal! Muita saúde... paz... pra você, sua família...". As festas de fim de ano, os enfeites iluminados, as mensagens de massa, a "magia do natal"... quase me convencem de que não há mais mal, e que vivemos em tempos de paz! Nem tanto... Por trás dos morros, em volta do centros comerciais, há duras mazelas escondidas, ofuscadas pelas luzes na cidade (veja o blog: www.flanancias.blogspot.com).
 Parece que se corrige fácil o incômodo dessa contradição, como com os dizeres de alguns religiosos que anunciam "Jesus nasceu!", escondendo nossas angústias... Parece fácil lembrar do "verdadeiro sentido do Natal", contra a hipnose consumista do bom velhinho-propaganda e das garantias de poder aos compradores da Nike..., ou contra a presença incômoda da pobreza subordinada àquele poder...  É só colocar um presépio na praça central do shopping ou da cidade e falar para as crianças que apesar daqueles presentes que fazem seus olhos brilhar como Las Vegas, no Natal a gente lembra é do nascimento de Jesus! Pronto! Qualquer criança sabe disso, e alguns adultos também... Mas e aí?! O que isso significa pra mim?!
Falar "Jesus nasceu" é fácil, e pode virar orgulho de fariseus, se a gente não sacar o enorme constrangimento que isso nos causa. A vinda de Jesus nos causa um confronto existencial por um Deus perfeito e eterno que se fez homem, revelando a todos nós a nossa condição tão miserável. Limitações temporais, angustias relacionais, conturbações sociais... todas revelam nossa condição equivalente de pobreza. Somos todos assim, enquanto formos homens e mulheres. Mas as belezas iluminadas escondem essas feridas escuras que precisam ser tratadas com muita dor. E as nossas feridas mais feias estão escondidas bem lá dentro, como que por trás de imensos morros a serem escalados da mesma forma que se desce a profundos vales... Não dá pra fugir dos nossos confrontos pessoais...
 Mas tem uma parte boa nessa história. É que aquela constrangedora natalidade nos dá esperança verdadeira de dias melhores, em um tempo futuro em que definitivamente não haverá mais mal, e a paz será eterna! Até chegar lá, só não podemos fugir dos confrontos pessoais. Socialmente, permanecemos nessas contradições... como naa postagem abaixo!

Natal em mim, natal nos outros...

É bem legal ver as festas de fim de ano, trocas de presentes e confraternizações que nos inspiram às amizades. E penso que isso está essencialmente ligado ao "sentido do natal", sim. Uma grande marca que Jesus deixa pra gente é a de relações comunitárias bem equilibradas. Mas, como já disse, há muito mais confronto do que queremos ver nessas relações comunitárias, ou por trás dessas festas.
Há dois versículos na Bíblia que, não por mera coincidência, aparecem em referências quase idênticas: João 3:16 e 1 João 3:16. O primeiro é bem conhecido, e explica bem o sentido espiritual da vinda de Jesus: "Porque Deus amou o mundo tanto, que deu o seu único Filho, para que todo aquele que nele crer não morra, mas tenha a vida eterna" (Jo. 3:16). O segundo não é tão conhecido, mas completa bem, e socialmente, o sentido pessoal que o primeiro nos revela: "(...) Cristo deu a sua vida por nós. Por isso nós também devemos dar a nossa vida pelos nossos irmãos." (1 Jo. 3:16)
Isso dá sentido às confraternizações do natal! Mas, talvez, mais difícil ainda do que amar a ponto de dar a vida pelo outro, é amar tanto assim a quem não está por perto dos nossos círculos de amizade... amar apesar das diferenças, daqueles que nos tiram o sossego... Ou, indo mais além, é mais difícil ainda amar a quem nos odeia... dia a dia, e não só na hora de entregar o presente por tê-lo tirado no amigo-oculto... Essa também é uma marca que Jesus nos deixou: "Amem os seus inimigos e orem por aqueles que os perseguem" (Mateus 5:44).
O que se realizou no natal, com a vinda de Jesus, dá todo sentido à vida, que se perde no tempo e espaço... Da sentido à minha vida tão pequena, que vislumbra a eternidade na minha relação com Deus. E dá sentido à minha vida tão turbulenta na minha relação com os outros, aprendendo, sempre aprendendo... a amar mais, porque Cristo me amou primeiro.

Pensando nisso, feliz natal!