O pais amanheceu de luto com a derrocada da seleção ontem, contra a Alemanha. Alguns anunciam ser hoje uma quarta-feira de cinzas. Apropriado. É uma manhã em que, após dias de carnaval, cai a ficha de que estamos numa condição pueril e que a festa era pura ilusão.
Difícil cair a ficha as vezes... mas uma pancada na cabeça talvez ajude. Foi o que aconteceu ontem. Não por um acidente 'fisiológico', como o da Copa de 1998, ou como vários que alertaram pelo caminho. Não. Foi algo consciente. Um time preparado, que trabalhou sério no seu objetivo, que não se desviou à emoções antagônicas ao esporte, nocauteou o outro time que só vive de emoções, comemorando ou lamentando excessivamente... fantasiado com uma falsa faixa de campeão. Uma boa descrição que encontrei para a seleção brasileira é a de que era um time de vidro, que se quebrou. Chegou a intimidar alguns, talvez, que não notaram sua fragilidade. Mas aí a mascara caiu... ou a fantasia toda.
E a seleção é um reflexo de todo país. Um país que vive de emoções. Que, por mais que reconheça a seriedade dos seus problemas, não sabe tratá-los na realidade. Alivia as dores com uma festa... um riso... ou um choro... um discurso emotivo de palanque... de rua... que distraia os olhos da realidade. Foi bonita a entrevista do capitão do time, ontem. O cara chorou... e é claro que um choro expressa, do fundo, um sentimento sincero. Mas... Davi Luiz... se o Brasil ganhasse, o sofrimento do seu povo não seria resolvido. Seria "uma alegria"... claro. Válida? Talvez... se soubéssemos tratar nossas mazelas... Mas como tratamos?
Vamos pras ruas?! Fazer nossos líderes de Judas e clamar a ideologia da baderna?! Nããão... A grande massa dos nossos protestantes clamaram pacificamente... Mas me diga... Quantos daqueles milhares de brasileiros das passeatas já foram a um conselho de saúde ou educação, na sua cidade? Ou dos que gastaram horrores para assistir aos jogos, dos que vaiaram a nossa soldado de frente, diante do mundo! Ou dos que dispuseram tanto tempo no voluntariado à Fifa... Quanto trabalhamos de fato, minha gente, por um Brasil melhor?
É a pergunta que faço, é claro, primeiramente a mim. O esporte, que deveria ser uma expressão paralela de trabalho sério, disciplina, união... se mostrou na Copa, no Brasil, tudo que seja o oposto disso. E enquanto tento me avaliar, me corrigir... buscar algo sério a me apegar, encontro em meu contexto uma nação Macunaíma... que só gosta de brincar. A "quarta de cinzas" alemã aconteceu há 12 anos atrás, numa derrota equivalente para o Brasil. Ou... numa rendição política há vinte e cinco ou cinquenta anos... e na reconstrução de um país por inteiro... Mas como eu não estou livre de nenhuma das criticas desse meu desabafo,vou começar arrumando meu próprio quarto...
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quarta-feira, 9 de julho de 2014
segunda-feira, 24 de junho de 2013
Quem precisa de cura?
Participei na última sexta-feira da reunião de uma associação que está se formando em Viçosa com a finalidade de combater a corrupção no município. Embora a idéia não fosse parte da onda de protestos no país durante a semana, a experiência serviu muito bem pra se pensar nossa inserção política. Durante a reunião, enquanto apresentavam experiências de outras associações semelhantes pelo Brasil, um dos dirigentes provocou-nos a pensar que somos todos igualmente corruptos. Para tanto, chamou a frente um dos líderes do movimento colocando-o diante do seguinte dilema: “Imagine-se ao lado da bifurcação de uma linha férrea, tendo às mãos a alavanca que muda o sentido da bifurcação a ser seguido pelo trem. O trem se aproxima em velocidade acelerada enquanto, num sentido da linha bifurcada, sobre os trilhos, encontra-se um trabalhador ferroviário abaixado, e no outro sentido encontra-se um grupo de estudantes distraídos num protesto. O trem inevitavelmente seguirá um dos dois sentidos e você, com a alavanca nas mãos, deve decidir para qual deles. Após pensar um pouco na situação, o cara respondeu: “Eu o direcionaria no sentido do trabalhador ferroviário já que assim o trem atropelaria apenas uma pessoa, e não um grupo. ” Aí o dirigente, após confirmar que esta era a atitude mais ética e correta a se fazer, continua: “Agora imagine se no lugar daquele trabalhador estivesse o seu filho, com cinco anos de idade. Sua decisão deve ser rápida.” O cara hesitou um pouco mas assumiu: “Eu o direcionaria ao grupo de estudantes...”. O dirigente encerrou deixando a lição que pra mudar o mundo é preciso primeiro enfrentar a si mesmo.
É difícil assumirmos, numa postura de humildade, essa nossa condição corrupta... A gente usa todo tipo de subterfúgio pra tirar de si a culpa. Mas o fato é que o mal que nos incomoda tanto lá fora, começa dentro de nós mesmos... Egoísmo/egocentrismo, roubo, ambição desenfreada, cobiça alheia, orgulho, ira... Quais são os seus pecados? Dívidas não pagas, impaciência com os filhos, ou com os pais..., "gatos" com fio de internet, atestados de má fé, trabalhos e provas copiados, desrespeito no trânsito, demagogia, falta de diligência e intrigas no trabalho... A lista é bem maior do que o número de pessoas que a assume. Houve uma ocasião, no início do século XX, em que o jornal London Times pediu que alguns escritores respondessem à pergunta: "O que há de errado com o mundo?" Um deles, G. K. Chesterton, filósofo e cristão católico, respondeu-lhes em quatro linhas:
“Prezados senhores,
Eu.
Atenciosamente,
G. K. Chesterton.” (Ortodoxia)
Aí eu me ponho, então, diante daquele dilema na linha férrea tendendo, é claro, à decisão corrupta. E imagino, associando o fato a um contexto político, se eu pudesse receber algum tipo de orientação popular, um conselho que seja, que me fizesse pensar e assumir a postura que seria ética fazer... Eu me arrancaria os cabelos... me jogava ao chão em prantos e, urrando angustiado... (não sei se realmente conseguiria) faria o correto... agindo contra a minha vontade...
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| Fonte: V de Vinagre |
Ouvi neste domingo uma reflexão sobre um momento auge da vida de Jesus, em que ele passou por experiência semelhante, ou muito pior, no jardim do Getsemani. Jesus, sendo Deus, sabia que estava prestes a ser preso, açoitado e morto pelos soldados romanos. Recolheu-se ao jardim com mais três discípulos e também amigos que talvez pudessem lhe dar algum apoio. Pôs-se a orar, angustiado pelo que o aguardava. Pediu a Deus Pai que, se possível, evitasse o sofrimento que estava para acontecer. Os amigos que vieram em sua companhia dormiram... E ele mais angustiado, repetia “Pai, se for possível, afasta de mim este cálice. Mas que seja feita a sua vontade...” Como é dificil agir contra nossa vontade... Segundo relata a Bíblia, sua agonia era tanta que do seu suor passou a escorrer sangue pelo corpo. Instantes depois chegaram os soldados. Pedro, um dos discípulos, ergueu espada para o defender, ao passo que ele o ordenou de imediato que a abaixasse pois aquilo lhe devia acontecer. Somos ensinados que por este seu ato de entrega e sacrifício, hoje podemos nos libertar desta nossa condição tão falha. Bem... isso quando aceitamos que somos mesmo falhos...
Pois então... quanto a isto, houve outra ocasião em que Jesus, assentado entre pecadores, percebia uns que questionavam por que ele estava entre aqueles, e lhes respondeu alto: “Os sãos não precisam de médico e sim os doentes.” Os doentes... só os doentes precisam de cura... É o que penso quando percebo minha fraqueza... quando me ataca a ira, quando sou tentado à cobiça... Penso logo em assumir o meu erro e ir correndo em busca de cura. Afinal, só quem é são não precisa de cura. E só se eu assumir a minha fraqueza é que posso aceitar alguma ajuda pra fazer o que é certo. Ah! E é claro que só assim eu posso ajudar o outro também. E não me resta dúvida de que este é o caminho para minha vida. E esta é a verdade sobre a nossa sociedade.
sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012
Carnaval é festa de quê, mesmo?!
- Alguns são presos com drogas que seriam vendidas no carnaval em Ouro Preto... - Adolescente é apreendida com metralhadora em BH... - Aids é uma incógnita para maioria dos jovens brasileiros... -Jovem salva a namorada e morre atropelado por motorista alcoolizado... Essas são algumas das notícias que li hoje cedo, à véspera de um feriado que me levanta a questão: O que se celebra no carnaval?!
Lembro-me do que escrevi sobre o carnaval, ano passado, descrevendo-o como suposta festa religiosa (Oba Oba, carnaval)... Mas pensando mais um pouco, hoje eu diria o oposto. O carnaval é uma festa anti-religiosa (claro...). Não num sentido crítico, racional, maduro, como necessitamos contra uma religiosidade farisaica, materialista, estetica, e cegamente ritualística. Ao contrário, o carnaval se apresenta como a negação da razão, do equilíbrio e, assim, da conciliação da humanidade à sua essência espiritual.
Não quero discorrer sobre qualquer sentido verdadeiro de religião, ou argumentar a existência dessa espiritualidade, que dia a dia clama dentro de mim por algo mais essencial do que essa carnalidade vazia. Mas, a despeito dos sentidos racionais de rituais religiosos, o carnaval surgiu associado ao calendário católico como uma festa de consumo excessivo de carne, à véspera da quaresma, quando propunha-se suspendê-la da dieta dos cristãos, em busca de equilíbrio e domínio próprio. Algo como uma festa do desequilíbrio, em prol do equilíbrio...
Não é nenhuma novidade, isso, nessa nossa tendência tão pecaminosa. De fato nós humanos (eu, inclusive) nunca quisemos equilíbrio algum, como verdadeiramente propõem as doutrinas religiosas. E não é uma prática ritualística impensada que vai nos doutrinar cegamente sobre algum equilíbrio necessário.
Não... não uma prática ritualística... Mas talvez a minha própria razão me chame à atenção desta necessidade por equilíbrio. Uma razão que não se encerra em rituais, e nem se resume à fisiologia do meu cérebro ou do meu corpo. Mas uma razão que me conecta diretamente à existência de um "Bem" maior do que esta minha condição material tão miserável. Uma razão que dá sentido real às nossas celebrações, que não se encerram em nós mesmos, ou numa satisfação pessoal qualquer.
Como já disse, eu também gosto de festas, curtir amigos e celebrar algo que realmente tenha sentido na vida. Mas na minha comunidade ampliada, nas notícias que leio, ou no contexto que assisto passando na janela, parece que o carnaval não representa isso, e me serve mais pra revelar o quanto nós, humanos, realmente precisamos de mais equilíbrio... É chato dizer, né? Mas pra quem é feito só de carne... como um pedaço de pau oco... ou como quem é feito de ferro, mesmo..., que celebrem a vontade o desequilíbrio insaciável do carnaval. #Bom Carnaval...
Lembro-me do que escrevi sobre o carnaval, ano passado, descrevendo-o como suposta festa religiosa (Oba Oba, carnaval)... Mas pensando mais um pouco, hoje eu diria o oposto. O carnaval é uma festa anti-religiosa (claro...). Não num sentido crítico, racional, maduro, como necessitamos contra uma religiosidade farisaica, materialista, estetica, e cegamente ritualística. Ao contrário, o carnaval se apresenta como a negação da razão, do equilíbrio e, assim, da conciliação da humanidade à sua essência espiritual.
Não quero discorrer sobre qualquer sentido verdadeiro de religião, ou argumentar a existência dessa espiritualidade, que dia a dia clama dentro de mim por algo mais essencial do que essa carnalidade vazia. Mas, a despeito dos sentidos racionais de rituais religiosos, o carnaval surgiu associado ao calendário católico como uma festa de consumo excessivo de carne, à véspera da quaresma, quando propunha-se suspendê-la da dieta dos cristãos, em busca de equilíbrio e domínio próprio. Algo como uma festa do desequilíbrio, em prol do equilíbrio...
Não é nenhuma novidade, isso, nessa nossa tendência tão pecaminosa. De fato nós humanos (eu, inclusive) nunca quisemos equilíbrio algum, como verdadeiramente propõem as doutrinas religiosas. E não é uma prática ritualística impensada que vai nos doutrinar cegamente sobre algum equilíbrio necessário.
Não... não uma prática ritualística... Mas talvez a minha própria razão me chame à atenção desta necessidade por equilíbrio. Uma razão que não se encerra em rituais, e nem se resume à fisiologia do meu cérebro ou do meu corpo. Mas uma razão que me conecta diretamente à existência de um "Bem" maior do que esta minha condição material tão miserável. Uma razão que dá sentido real às nossas celebrações, que não se encerram em nós mesmos, ou numa satisfação pessoal qualquer.
Como já disse, eu também gosto de festas, curtir amigos e celebrar algo que realmente tenha sentido na vida. Mas na minha comunidade ampliada, nas notícias que leio, ou no contexto que assisto passando na janela, parece que o carnaval não representa isso, e me serve mais pra revelar o quanto nós, humanos, realmente precisamos de mais equilíbrio... É chato dizer, né? Mas pra quem é feito só de carne... como um pedaço de pau oco... ou como quem é feito de ferro, mesmo..., que celebrem a vontade o desequilíbrio insaciável do carnaval. #Bom Carnaval...
quarta-feira, 16 de novembro de 2011
Meu próximo, à distância...
Amigos... É verdade o ensinamento bíblico que diz que há amigo mais chegado que um irmão... Embora pareça estranho, é agradavel essa curiosa proximidade dos amigos... Há amigos mais chegados que irmãos, que pais, tios, primos e até mais chegados do que uma esposa! E isso é muito bom... É bom porque se me bastasse só a amizade da família, até essa seria só família, sem amizade... sem o bom tempero da distância próxima de uma amizade... Os amigos são joias raras de se ver... A gente não vê os amigos todo dia. E o encontro de amigos é sinônimo de festa. É com os amigos que a gente encontra pra celebrar, pra brincar... e é com os amigos que a gente senta pra conversar... horas a fio... É com amigos que a gente põe a conversa em dia, depois de dias que não se teve amigos... Conversar com um amigo é falar noutro idioma, e ser compreendido... Só um amigo entende à distância... A amizade é um calor que aquece à distância, e faz a distância virar saudade, como um afeto de longe... Amigo é a outra pessoa que conhece a distância da gente... Amigo é outra pessoa que sente a distância da gente... E a distância de um amigo revela a proximidade de um afeto... O afeto de um amigo revela a proximidade de uma distância... A proximidade de um amigo é maior que qualquer distância... Tem amigo que é mais chegado que um irmão...
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Reencontro de 10 anos da ABU-Pós (Nov/2011)
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sábado, 15 de outubro de 2011
A vergonha do meu orgulho...
Se há um mal universal, nesse mundo tão ruim, e que persiste insistente sobre a nossa histórica luta pela paz, esse mal é o orgulho...
Orgulho tolo... e não é nada fácil escrever sobre ele. Até porque quem escreve é só mais um desses espécimes "virís", especialistas em esconder as próprias mazelas... Sim... eu sou mais um pobre orgulhoso... E se você não reconhece o seu orgulho, cuidado! Esse mal nos cega tanto que tendemos a esconder as nossas mazelas até de nós mesmos!...
NÃO! Eu não tenho orgulho de ter orgulho!... eu tenho vergonha do meu orgulho... Eu tenho vergonha desse mal que aflige o homem que não assume a sua fraqueza... Eu tenho vergonha de não assumir meus próprios erros... vergonha de ser tão inconstante... vergonha de não me aceitar na simplicidade da criação divina... E que loucura é não aceitar isso!...
Que me perdoem as minhas amigas por uma confissão indecorosa... (minha esposa me conhece mais ainda... pior ainda...), mas preciso assumir que tenho uma trágica tendência à poligamia! (Isso é natural?!). Tamanha a loucura disso que, se nos faltasse mais vergonha, logo teria gente gritando nas ruas "Basta, de polígamo-fobia!"... Orgulho insano... Se bem que, na verdade, não acho que exista tanta fobia por isso não. Só uma culpa, mesmo. Algo pessoal... E penso até que "seria discriminatório, se tratassem os polígamos de forma diferente dos demais pecadores..." (Se você ainda não entendeu minha confissão, eu sou um pecador! E que o meu orgulho não me esconda essa verdade...). Aliás, dizem os psicólogos que o orgulho nada mais é que uma auto-defesa dos nossos complexos e culpas...
Pois, então, eu prefiro assumir a minha culpa, e preservar a sanidade sobre a vergonha do meu orgulho... a sobre-sanidade de me pensar além do meu próprio entendimento... além da minha (in)capacidade de me entender, nessa condição tão miserável... além dos meus desejos insaciáveis, além de mim mesmo... Contra esse orgulho, eu ainda tento me negar... E negar-me, a mim mesmo, é a maior afronta ao meu orgulho...
Negar-se a sí mesmo é o maior desafio para os que querem "amar-vos, uns aos outros"...
Orgulho tolo... e não é nada fácil escrever sobre ele. Até porque quem escreve é só mais um desses espécimes "virís", especialistas em esconder as próprias mazelas... Sim... eu sou mais um pobre orgulhoso... E se você não reconhece o seu orgulho, cuidado! Esse mal nos cega tanto que tendemos a esconder as nossas mazelas até de nós mesmos!...
Tamanha a tragédia, desse pecado capital... que é certamente o grande causador de tantos outros males, nessa humanidade perdida... Guerras entre as nações, violência nas cidades, assédios no trabalho, ganância nas igrejas e... rebeldias insanas pelas ruas... É... pior ainda é sair gritando pelas ruas, exibindo seus orgulhos... Orgulho de que?!
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| By: Eula´s World |
Que me perdoem as minhas amigas por uma confissão indecorosa... (minha esposa me conhece mais ainda... pior ainda...), mas preciso assumir que tenho uma trágica tendência à poligamia! (Isso é natural?!). Tamanha a loucura disso que, se nos faltasse mais vergonha, logo teria gente gritando nas ruas "Basta, de polígamo-fobia!"... Orgulho insano... Se bem que, na verdade, não acho que exista tanta fobia por isso não. Só uma culpa, mesmo. Algo pessoal... E penso até que "seria discriminatório, se tratassem os polígamos de forma diferente dos demais pecadores..." (Se você ainda não entendeu minha confissão, eu sou um pecador! E que o meu orgulho não me esconda essa verdade...). Aliás, dizem os psicólogos que o orgulho nada mais é que uma auto-defesa dos nossos complexos e culpas...
Pois, então, eu prefiro assumir a minha culpa, e preservar a sanidade sobre a vergonha do meu orgulho... a sobre-sanidade de me pensar além do meu próprio entendimento... além da minha (in)capacidade de me entender, nessa condição tão miserável... além dos meus desejos insaciáveis, além de mim mesmo... Contra esse orgulho, eu ainda tento me negar... E negar-me, a mim mesmo, é a maior afronta ao meu orgulho...
Negar-se a sí mesmo é o maior desafio para os que querem "amar-vos, uns aos outros"...
segunda-feira, 29 de agosto de 2011
Agora chega!
A música Construção, de Chico Buarque, anteviu a agonia: “E flutuou no ar como se fosse um pássaro. E se acabou no chão feito um pacote flácido. Agonizou no meio do passeio público. Morreu na contramão atrapalhando o tráfego...” Anderson Fidelis
Anderson dos Reis Fidelis, 30 anos, marido de Juliana e pai de Bianca (de apenas 8 meses), pedreiro, congregado batista de Teixeiras, foi o protagonista da semana em uma das tragédias envolvendo as construções de Viçosa. Denúncia!
Denúncia cruel de uma sociedade ambiciosa que valoriza o acúmulo de riqueza em total desprezo pela vida humana. Gota d’água
Gota d’água para mim e para outros que estamos perigosamente, passivamente, escandalosamente calados. Se Anderson teve ou não culpa na queda. Se a empresa de construção proporcionou ou não a segurança. Não é o caso. O caso é que as construções continuam perversamente fazendo vítimas visíveis ou invisíveis, trágicas ou sutis, pessoais ou coletivas, que se tornam, apenas, assuntos curiosos de nossas conversas. Crescem as construções sem qualquer respeito ao ambiente, à natureza e ao ser humano. Protesto!
Eu protesto: iniquidade! Eu grito: desumanidade! É extremamente injusta a usura imobiliária de Viçosa. É de longe o nosso maior pecado social. O que fazer?
O que fazer diante da denúncia? Chorar e agir!
Chorar – porque é vergonhoso e ímpio. Agir – não participando na construção de prédios para ganhar mais dinheiro; não participando da especulação imobiliária; não participando no reajuste abusivo de aluguéis; não participando na compra de mais imóveis; não participando no acúmulo de bens. Aí, sim!
Aí, sim, poderemos nos unir, pôr a boca no trombone e dizer em alto e bom som: Chega!
Jony de Almeida
(Texto publicado no boletim da Igreja Presbiteriana de Viçosa, em 28 de Agosto de 2011.)
sábado, 14 de maio de 2011
Sobre guerras e justiça...
Há alguns dias fomos todos surpreendidos com a notícia da morte de Osama Bin Laden. Ou melhor... nem todos assim, da mesma forma. Um pequeno grupo da liderança norte-americana sabia (?) e assistia à operação. E outro grupo deve ter sido mais surpreendido que nós, se expondo agora aos gritos e ataques, sendo que não apenas receberam uma notícia, mas foram vítimas da morte de seu líder, e se dizem até injustiçados.
Mas o anúncio por Obama da morte de Osama ecoou nos jornais com uma fala muito parcial de que "justiça foi feita", em memória aos ataques sofridos em 11 de setembro de 2001. No jornal Metro, de Vancouver, aparece uma frase de Obama dizendo que o falecimento deveria ser bem recebido por todos que valorizam a paz e a dignidade humana. Já a Globo lembra, no entanto, a promessa de Osama, de que os Estados Unidos não teriam segurança enquanto a Palestina não vivesse em paz. Parece que ambos buscam a mesma coisa... sem saber o que ela significa, realmente...
Há grupos diferentes e visões diferentes nesse mundo. E entre tantos impasses, fica difícil dizer o que paz, o que é bom, ou o que é justo ou não fazer... Longe de mim defender a Al Qaeda. Mas a contradição é nítida diante da guerra... pela paz. Ou com afirmações sobre "justiça", diante da "injustiça" alheia. Ou seja, se faz justiça fazendo injustiça...Sem medir os danos causados inicialmente pela Al Qaeda aos norte-americanos ou vice-versa, o problema é a limitação da nossa noção de "justiça".
Não agir contra Bin Laden poderia significar uma exposição covarde dos Estados Unidos à mortes e, assim, negligência em proteção a seu povo. Mas, como tantos disseram, "deveriam o apreender, masnão matá-lo!"... Se tivesse acontecido assim, já pensou que bomba relógio os EUA teriam nas mãos, expondo-se a ameaças e ataques maiores pela soltura?
Após tantas conversas que já rolaram por aí sobre o assunto, eu tiro uma lição: quão limitados nós somos, miseráveis seres humanos, para fazer justiça... Por mais que nos pareça "bom" ou "seguro" algumas ações, não dá pra dizer, humanamente, o que seria justo ou não fazer. Na verdade, o que afirmamos sobre justiça é algo que extrapola a nossa fragil condição humana, sendo que não conseguimos afirmá-la em nós mesmos.
quinta-feira, 14 de abril de 2011
Fazer o bem faz bem?
Ouvi dizer numa campanha de promoção do bem estar social pelo rádio que "fazer o bem faz bem"... E usavam lá algum argumento do tipo: "a super-especialista em relações de poder entre os cães e que, portanto, pesquisa a relação de poder da hortelã no combate à depressão, garante que as reações químicas cerebrais ocorridas no caloroso contato com o "próximo" equivalem à agradável sensação de prazer ao se tomar um chazinho de hortelã"... Naquele momento em que minha atenção se dispersava entre a ficção científica midiática e a dura realidade diante de mim, uma mosca voou inquieta até pousar nessa tela que você está prestes a fechar.
Não sei bem onde começam os meus questionamentos a esse respeito... Mas tentando prender um pouco mais a sua atenção para a contra-reflexão, ou melhor, a contradição proposta, eu questionaria a noção de "bem" apresentada naquela campanha. Ou mesmo a nossa parca e opaca noção de bem... Estou certo de que tudo o que eu julgar ser da melhor possibilidade de benevolência, terá sua veracidade miseravelmente comprometida pelo simples fato de que "eu" estou julgando assim... (Mas, apesar disso, qual é a nossa referência de "bem"? Existe uma referência, não? E que nos incomoda muito...) E nem sempre o bem julgado que fazemos o é "bem", da mesma forma, à pessoa que o recebe. Ainda, por que se referir ao trabalho social, filantrópico, ou alguma forma de "favor ao próximo" como sendo atos de "fazer o bem", e não aos atos de cuidar das plantas no jardim de casa ou lavar as vasilhas empilhadas na pia... ou mesmo o agir com diligência e competência no próprio trabalho... públicos e assalariados? Segundo a perspectiva da campanha, parece que é porque valoriza-se a vida social em que nos dispomos de sentimentos egoístas para agir caritativamente em favor de uma sociedade melhor. E isso voluntariamente. Sim... é verdade. Mas isso é tão retórico que seria o mesmo que divulgar que a água tem gosto de água (sem, contudo, saber qual é o gosto da água...), sem tanto respaldo para uma campanha. Agora, incentivar o bem desses atos "sociais" pela garantia de bem ao próprio agente, não é retórico... é contraditório.
A não ser que esta divulgasse, em verdade, o inverso do proposto (a contradição que faz sentido...). Explico. Falando de vida social, é certo que o bem disposto ao outra pessoa não deve valor algum ao agente que o faz visto que, para tanto, se dispõe previamente de sentimentos egoístas... Ora, se esse agente se dispõe, então, das intenções de benefício próprio que aquela honrosa ação social o traria, ele não deveria buscar honra qualquer, ou qualquer prazer próprio, equivalente ao de um chazinho de hortelã... Não deveria "fazer o bem" pela garantia de "bem" retornado a si. Não que a sua ação não lhe possa ser prazeroza, mas o maior desafio para a vida social, para uma sociedade melhor, é o de mantermos posturas autruístas mesmo diante de incômodos desta causa. E isso não faz tão bem assim... Mas deveria ser mais provocado, coletivamente, em cada pessoa... como se propõe com uma campanha.
Tirar-se do centro dos objetivos das suas ações é um grande desafio para entender, mesmo parca ou opacamente, o que é o amor. Mas quando se tornar mais evidente a miserabilidade da nossa concepção de "bem", estaremos certos do que sempre buscamos ou chamamos de "melhor". Só quando vermos o que é realmente bom conheceremos de fato o bem que queríamos.
Não sei bem onde começam os meus questionamentos a esse respeito... Mas tentando prender um pouco mais a sua atenção para a contra-reflexão, ou melhor, a contradição proposta, eu questionaria a noção de "bem" apresentada naquela campanha. Ou mesmo a nossa parca e opaca noção de bem... Estou certo de que tudo o que eu julgar ser da melhor possibilidade de benevolência, terá sua veracidade miseravelmente comprometida pelo simples fato de que "eu" estou julgando assim... (Mas, apesar disso, qual é a nossa referência de "bem"? Existe uma referência, não? E que nos incomoda muito...) E nem sempre o bem julgado que fazemos o é "bem", da mesma forma, à pessoa que o recebe. Ainda, por que se referir ao trabalho social, filantrópico, ou alguma forma de "favor ao próximo" como sendo atos de "fazer o bem", e não aos atos de cuidar das plantas no jardim de casa ou lavar as vasilhas empilhadas na pia... ou mesmo o agir com diligência e competência no próprio trabalho... públicos e assalariados? Segundo a perspectiva da campanha, parece que é porque valoriza-se a vida social em que nos dispomos de sentimentos egoístas para agir caritativamente em favor de uma sociedade melhor. E isso voluntariamente. Sim... é verdade. Mas isso é tão retórico que seria o mesmo que divulgar que a água tem gosto de água (sem, contudo, saber qual é o gosto da água...), sem tanto respaldo para uma campanha. Agora, incentivar o bem desses atos "sociais" pela garantia de bem ao próprio agente, não é retórico... é contraditório.
A não ser que esta divulgasse, em verdade, o inverso do proposto (a contradição que faz sentido...). Explico. Falando de vida social, é certo que o bem disposto ao outra pessoa não deve valor algum ao agente que o faz visto que, para tanto, se dispõe previamente de sentimentos egoístas... Ora, se esse agente se dispõe, então, das intenções de benefício próprio que aquela honrosa ação social o traria, ele não deveria buscar honra qualquer, ou qualquer prazer próprio, equivalente ao de um chazinho de hortelã... Não deveria "fazer o bem" pela garantia de "bem" retornado a si. Não que a sua ação não lhe possa ser prazeroza, mas o maior desafio para a vida social, para uma sociedade melhor, é o de mantermos posturas autruístas mesmo diante de incômodos desta causa. E isso não faz tão bem assim... Mas deveria ser mais provocado, coletivamente, em cada pessoa... como se propõe com uma campanha.
Tirar-se do centro dos objetivos das suas ações é um grande desafio para entender, mesmo parca ou opacamente, o que é o amor. Mas quando se tornar mais evidente a miserabilidade da nossa concepção de "bem", estaremos certos do que sempre buscamos ou chamamos de "melhor". Só quando vermos o que é realmente bom conheceremos de fato o bem que queríamos.
quinta-feira, 31 de março de 2011
A morte de José de Alencar
Coisas que me chamaram atenção no evento:
Fiquei sabendo da notícia pelos corredores, no trabalho, após poucos minutos do falecimento do ex-vice-presidente. Os veículos eletrônicos de comunicação já estavam agitados para preencher os espaços entre as novelas, então ocupados pela ameaça radioativa no Japão e pelo "orgulho libanês", com outro ocupante à altura, que conquistaria a mesma atenção dos espectadores. Pelo menos por uns dias, na semana.
Lula e Dilma anteciparam a volta de Portugal e choraram amargamente a morte do amigo e aliado político. Vi o ex-presidente chorar mais do que a presidente. E com sentimento muito sincero de tristeza. Me impressionou o seu aspecto abatido e visivelmente fraco. O impacto da imagem de um ex-presidente da República chorando, entre as agraciações de força que tem recebido por aí, nos faz refletir muito. Assim como o choro de uma mulher.
A honraria governamental foi garantida pela bela encenação militar e assustadora exibição bélica (mas um militar desmaiou...). Li informação que confirmou uma suspeita, de que a minha geração ainda não tinha assistido a um funeral de tanta pompa, outorgada na res-pública planaltina. A não ser que os meus contemporâneos recordem o funeral de Tancredo Neves, quando se findava um longo movimento de "orgulho militar", no Brasil.
Na passagem rotineira dos dias úteis da semana, morreu naturalmente mais um brasileiro comum. Gente simples, dessas Minas Gerais, forte na dura luta contra a doença, mas fraco na luta vã contra a morte. Boa oportunidade, esse evento, para as exibições de força de uma nação empenhada na sua luta por hegemonia, neste jogo de poder que é a vida. Boa oportunidade essa... ao dizer que um de seus líderes morreu...
Fiquei sabendo da notícia pelos corredores, no trabalho, após poucos minutos do falecimento do ex-vice-presidente. Os veículos eletrônicos de comunicação já estavam agitados para preencher os espaços entre as novelas, então ocupados pela ameaça radioativa no Japão e pelo "orgulho libanês", com outro ocupante à altura, que conquistaria a mesma atenção dos espectadores. Pelo menos por uns dias, na semana.
Lula e Dilma anteciparam a volta de Portugal e choraram amargamente a morte do amigo e aliado político. Vi o ex-presidente chorar mais do que a presidente. E com sentimento muito sincero de tristeza. Me impressionou o seu aspecto abatido e visivelmente fraco. O impacto da imagem de um ex-presidente da República chorando, entre as agraciações de força que tem recebido por aí, nos faz refletir muito. Assim como o choro de uma mulher.
A honraria governamental foi garantida pela bela encenação militar e assustadora exibição bélica (mas um militar desmaiou...). Li informação que confirmou uma suspeita, de que a minha geração ainda não tinha assistido a um funeral de tanta pompa, outorgada na res-pública planaltina. A não ser que os meus contemporâneos recordem o funeral de Tancredo Neves, quando se findava um longo movimento de "orgulho militar", no Brasil.
Na passagem rotineira dos dias úteis da semana, morreu naturalmente mais um brasileiro comum. Gente simples, dessas Minas Gerais, forte na dura luta contra a doença, mas fraco na luta vã contra a morte. Boa oportunidade, esse evento, para as exibições de força de uma nação empenhada na sua luta por hegemonia, neste jogo de poder que é a vida. Boa oportunidade essa... ao dizer que um de seus líderes morreu...
quarta-feira, 2 de março de 2011
Oba Oba, carnaval...
"Só eu que não gosto de carnaval?!", me perguntou uma amiga virtual nessas redes sociais. Essa eu tenho que responder! (Aiai... me sinto um moralista... quadradão... estraga prazeres, pra falar dessas coisas... Mas é o seguinte, eu também gosto de viajar, curtir os amigos em festas, eu também gosto de festas! Só tenho uma opinião peculiar sobre essa que... tenho que falar!)
Descobri há uns anos atrás que o carnaval é uma festa religiosa!, sabia?! Digo... pelo menos surgiu relacionada à um calendário religioso, da Igreja Católica, em um dia véspero à Quaresma, no qual as pessoas comiam bastante carne para suspendê-la de sua dieta no período seguinte, até a semana santa. Bom, essa foi uma das versões que li, que não é tão consensual... E não sei quantos dos foliões de hoje cumprem mesmo o jejum de carne no período seguinte. Embora eu seja cristão, não frequento a Igreja Católica e não cumpro. Mas me parece que, no interior ou na apoteose, ninguém tá pensando no que vem depois da véspera, não é mesmo? A regra é "ser feliz aqui e agora"! ... Que pena... Seria até interessante, embora insuficiente, se depois da festa quem a festejou assumisse por quarenta dias ou, melhor ainda, o ano todo, uma postura de abnegação, representada pelo jejum, após o carnaval! Não... isso não é moralismo e nem uma religiosidade farisaica que nos força à torturas contra nós mesmos, e sem sentido pessoal real! Estou falando apenas que é interessante, e muito necessário, a gente ter mais controle dos próprios instintos! Afinal, o grande desafio da vida em sociedade é a negação dos próprios prazeres em favor do outro.
Bom... mas aquela festa evoluiu se associando, ainda, a outros movimentos como de protestos dos negros, na época do Brasil colônia, que ironizavam as damas portuguesas com suas saias rodadas. Pois é... só que o grande desafio permanece e... hoje... que protesto social que nada! Qual é o conteúdo das letras das "marchinhas", os sambas-enredo, na avenida? E os grandes blocos nas pequenas cidades?, que vagam por aí, acendendo fogo nos... adolescentes..., com hormônios à flor da pele, e que se pudessem aboliam logo os fiapos de roupa usados nas ruas, pra fazerem crescer as populações... humana e virais!
A questão sexual é um problema sério, no carnaval. Os casos de exploração sexual aumentam cerca de 30% nesse mês. E alguém sabe sobre os casos de DSTs?, que não são dados com muita clareza pelo governo, que, aliás, preza muito pelo turismo garantido na época?! Em tempo, turismo sexual é outro problema seríssimo no Brasil (também pouco noticiado...), mais agravado com tanta propaganda de mulher pelada na TV, nessa época... Sem falar das drogas e... outro mal velado: o alcoolismo.
Bem, sobre exploração sexual, fizeram lá uma passeata no Rio, semana passada, que contou com umas oitenta pessoas..., e em outras cidades, que deve ter mudado a percepção de quem festeja... Sobre as DSTs e os "virus-babies-booms", deixa por conta das campanhas do Governo também, que mudam muito a nossa perspectiva, sabe?... São um confronto pessoal profundo pra mim... (Mas não mais do que a propaganda da Globeleza...). Questionei outro amigo meu, folião de primeira daqueles blocos efervessentes, sobre a falta de consciência social que rola nessas festas por aí... Ele respondeu de imediato: "Nós temos! A camisa do nosso bloco tem um bolso na frente, que já vem com uma camisinha!" ... Putz!... Resolveu o problema! ... (Pense numa coisa: "sexo" e "seguro" são termos antagônicos! Em todos os sentidos, você está totalmente vulnerável à pessoa a quem se entrega!) É chato falar disso, né? Mas o que há de mal na sociedade começa em cada um de nós. E, pior ainda, o problema social da sexualidade não está só nas DSTs, mas principalmente no egocentrismo das relações... Será que não? Seria uma contradição? É... parece que o carnaval junta uma coletividade de satisfações egoistas... (e o pior é que tem gente até procurando casamento nesse meio...). E isso não tem campanha que resolve!
Bom... respondendo à minha amiga virtual, não é só você que não gosta de carnaval! ... Mas deixa o mundo como está que ninguém é de ferro...
sábado, 12 de fevereiro de 2011
Azul da cor do céu...
Era quinta feira a noite. Um dia normal de atividades em que, entre os compromissos tensos da semana, sentamos agradavelmente entre amigos para "falarmos de fé". Tivemos um momento alegre de trocas de idéias muito ricas à luz de C. S. Lewis. Mas não tão alegre que nos fizesse negligentes à evidente realidade do sofrimento humano. Na verdade, o problema do sofrimento era o tema de nossas conversas informais. E a conversa rolou solta... sem saber como parar... Até que chegou a hora de entrar no fusca pra voltar pra casa.
Mas...
quem sofre sempre tem que procurar,
Que razão é essa, meu Deus? (opa! ...)
E o fiz, receioso como sempre de uma pane eminente no veículo, que pudesse me deixar abandonado em uma estrada de terra deserta e escura, que dá acesso à casa onde nos encontramos. A condução tem lá seus riscos, mas tem um radinho legal que sintonizei, então, numa estação local, quando fui surpreendido pela música que tocava, e que já ouvi e cantei algumas vezes, confundido pelas trocas poéticas de suas palavras. Fluia o som...
Ah...
na vida a gente tem que entender...
que um nasce pra sofrer...
enquanto o outro ri...
A gente tem mesmo que entender isso? Como entender o sofrimento de uma criança imobilizada por uma esclerose, que passa num carrinho de bebê pela cidade, conduzida pela mãe dedicada que divide seu tempo entre a criança, as responsabilidades domésticas e o trabalho fora pra garantir alguma mínima subsistência? Isso enquanto passa por ela um jovem que, sem ser tão dedicado, goza de saúde e alguns privilégios sociais que facilitam a sua sobrevivência diante de dificuldades igualmente... sufocantes, na cidade. (A pior tragédia é ser bem sucedido no que não importa). De onde virá a justiça dessa terra? Haverá justiça nessa terra?
Num passeio desinteressado pela cidade fica evidente que os privilégios de alguns realmente não são méritos de qualquer esforço próprio. E isso é por demais confrontador à nossa condição e existência.
A questão, me parece, é que o inevitável sofrimento é ameaça fatal ao impulsivo controle que pretendemos ter pra fazer as coisas correrem bem, na vida. E realmente, não é por nossas leis que as coisas acontecem, na vida, mas pelas leis da própria vida. E o sofrimento é uma condição inerente à propria vida. Como lemos de Lewis, "tente excluir a possibilidade do sofrimento que a ordem da natureza e a existência do livre-arbítrio envolvem, e descobrirá que excluiu a própria vida." (C. S. Lewis - O Problema do Sofrimento: www.scribd.com/doc/4092705/C-S-Lewis-Problema-do-sofrimento).
Dá pra pensar nisso num bate papo entre amigos, dirigindo em via escura, ou andando entre as mazelas sufocantes das cidades, onde percebemos que o sofrimento é eminente em todos nós. Não há condição segura a qualquer homem, risonho ou contrito. Ambos estão igualmente expostos à pane eminente do próprio corpo. E só nos resta se ajustar às leis da própria vida. Diante do medo, há quem reconheça uma lei maior na vida, e que se contrasta com as nossas próprias, e que torna possível até a percepção do próprio sofrimento.
Bem, mas a música continuava...
Bem, mas a música continuava...
Mas...
quem sofre sempre tem que procurar,
pelo menos vir achar,
razão para viver...Que razão é essa, meu Deus? (opa! ...)
terça-feira, 1 de fevereiro de 2011
(Postagem sem título)
Vulnerabilidade
Desigualdade
Desigualdade
Comunidade
Paternidade
Sinceridade
Publicidade
Felicidade
Castidade
Caridade
Vaidade
Cidade
Idade
da pedra
que rolou
no véu da noiva
e caiu
no vale do rio
cheio de água
que despencou do céu
e soltou as pedras das montanhas
que ficaram lá
sedimentadas
no fundo do coração.
As palavras são como pedras no meu coração...
Isso acaba com o cristão
Desilusão emagrece
tristeza tira o apetite
Desilusão emagrece
tristeza tira o apetite
Nem toda palavra é
ação ou reação
razão ou emoção
As reticências são gotas de lágrimas que molharam um caderninho de folhas secas
que caíram
da árvore frondosa
que não tinha raiz
e caiu
por causa das chuvas
que caíram
por causa do sol
que revela o verão
visto no futuro,
passado da primavera
quando forma o meu irmão
num canto escuro no quarto...
Um diploma de Doutor Honoris
causa
vergonha pro sinhô
vergonha pro sinhô
do carro de boi
e de vaca
ou do carrinho de bode
ou do carrinho de bode
da criança que chama bebê.
Diploma pra quê?
Pra que arte
na parte de baixo
do que tá em cima
feito pirâmide do Egito
com teto de vidro...
Do outro lado da vida,
outro irmão e a infância.
O mundo é mais maduro do que parece.
Desencana, Wilde!
Muita coisa boa nessa vida
de excessos...
de coisa boa
de coisa a toa
na sociedade
que não se cuidou...
E a terra deslizou
e me sufocou...
a xícara quebrou...
Quebrou a xícara!
E se eu colar de novo,
vai ficar a marca
do passado
no presente
de aniversário
que era pra lembrar
no futuro
do presente
passado
trincado
machucado
Que remédio que cura?
Impureza sexual: tem cura?
Os sãos não precisam de...
violoncelo.
Mansa contradição
de um coração em contrição...
quinta-feira, 13 de janeiro de 2011
A casa caiu...
Era dezembro, há poucos dias, e várias luzes se acendiam nas cidades, não sei bem se pra iluminar mais ou ofuscar algo no fim de ano... Parecia que queriam nos convencer da superação de algum mal, pra entrarmos cegos e negligentes nesse ano que já não é mais tão novo. A tradição em volta das igrejas se mantinha de peito estufado, mas vulnerável como castelinho de areia. A mesma natureza que virou o eixo da terra pra fazer nascer um ano novo, anuncia com as chuvas que ainda somos naturalmente humanos e fracos.
A Globo iniciou, por esses dias, um empenho jornalístico para nos mostrar algo de belo em nosso país em algumas reportagens que chama de Globo Natureza. A reportagem do Jornal Nacional de hoje (12 de jan.) não foi ao ar, considerando maior tempo dedicado às notícias das tragédias no Rio de Janeiro. Penso que essas notícias poderiam ser integradas à programação do Globo Natureza. É tudo natureza... que foi criada de uma forma muito boa..., mas sofre uma perversão na sequência ininterrupta de tragédias. Essa convergente contradição foi expressada na fala de uma repórter, que disse: "a beleza natural da região esconde uma grande fragilidade por debaixo", que também é natural.
Gostaria de postar reflexões mais sociais nesse blog, mas ando olhando muito pra dentro de mim nesse início de ano, como as asas fechadas de uma borboleta a toa... Bem lá debaixo de uma casca natural tem muita fraqueza em mim, instalada em uma história de 28 anos, que não vejo como corrigir... E ver às tragédias anunciadas hoje no jornal, era como assistir às novelas que encenam o mal residente em todos nós. A falta de planejamento histórico no meu país é bem semelhante à minha falta de cuidado, desde que me entendo por gente... pelo que hoje luto com uma natureza própria, boa ou feroz...
Não é culpa das chuvas, não é culpa do Prefeito, não há culpa de réus, que essas tragédias reincidam ano após ano. É culpa de uma sociedade inteira que não se cuidou contra um mal que se instalou em uma história de 511 anos, ou mais... Não é culpa dos raios que partam os perfeitos, não é culpa de Deus que minhas mazelas se repitam por conscientes enganos... É culpa minha, enquanto eu não decidir lutar contra um mal que se instalou na minha natureza há incontáveis anos, não mais.
Fiz estágio na Defesa Civil, durante a graduação, e lá diziam muito que tinha que demolir as casas defeituosas e construir de novo. A lição pra mim, eu li num velho livro que dizia que precisamos nascer de novo... Será possível?!
quinta-feira, 23 de dezembro de 2010
O Natal por trás dos morros...
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| Liz Valente: www.flanancias.blogspot.com |
Chegando o Natal, a gente fica empolgado andando pelas cidades enfeitadas, por centros comerciais tão atrativos, e recebendo tantos bons desejos dos amigos: "Boas festas! Feliz Natal! Muita saúde... paz... pra você, sua família...". As festas de fim de ano, os enfeites iluminados, as mensagens de massa, a "magia do natal"... quase me convencem de que não há mais mal, e que vivemos em tempos de paz! Nem tanto... Por trás dos morros, em volta do centros comerciais, há duras mazelas escondidas, ofuscadas pelas luzes na cidade (veja o blog: www.flanancias.blogspot.com).
Parece que se corrige fácil o incômodo dessa contradição, como com os dizeres de alguns religiosos que anunciam "Jesus nasceu!", escondendo nossas angústias... Parece fácil lembrar do "verdadeiro sentido do Natal", contra a hipnose consumista do bom velhinho-propaganda e das garantias de poder aos compradores da Nike..., ou contra a presença incômoda da pobreza subordinada àquele poder... É só colocar um presépio na praça central do shopping ou da cidade e falar para as crianças que apesar daqueles presentes que fazem seus olhos brilhar como Las Vegas, no Natal a gente lembra é do nascimento de Jesus! Pronto! Qualquer criança sabe disso, e alguns adultos também... Mas e aí?! O que isso significa pra mim?!
Mas tem uma parte boa nessa história. É que aquela constrangedora natalidade nos dá esperança verdadeira de dias melhores, em um tempo futuro em que definitivamente não haverá mais mal, e a paz será eterna! Até chegar lá, só não podemos fugir dos confrontos pessoais. Socialmente, permanecemos nessas contradições... como naa postagem abaixo!
Natal em mim, natal nos outros...
É bem legal ver as festas de fim de ano, trocas de presentes e confraternizações que nos inspiram às amizades. E penso que isso está essencialmente ligado ao "sentido do natal", sim. Uma grande marca que Jesus deixa pra gente é a de relações comunitárias bem equilibradas. Mas, como já disse, há muito mais confronto do que queremos ver nessas relações comunitárias, ou por trás dessas festas.
Há dois versículos na Bíblia que, não por mera coincidência, aparecem em referências quase idênticas: João 3:16 e 1 João 3:16. O primeiro é bem conhecido, e explica bem o sentido espiritual da vinda de Jesus: "Porque Deus amou o mundo tanto, que deu o seu único Filho, para que todo aquele que nele crer não morra, mas tenha a vida eterna" (Jo. 3:16). O segundo não é tão conhecido, mas completa bem, e socialmente, o sentido pessoal que o primeiro nos revela: "(...) Cristo deu a sua vida por nós. Por isso nós também devemos dar a nossa vida pelos nossos irmãos." (1 Jo. 3:16)
Isso dá sentido às confraternizações do natal! Mas, talvez, mais difícil ainda do que amar a ponto de dar a vida pelo outro, é amar tanto assim a quem não está por perto dos nossos círculos de amizade... amar apesar das diferenças, daqueles que nos tiram o sossego... Ou, indo mais além, é mais difícil ainda amar a quem nos odeia... dia a dia, e não só na hora de entregar o presente por tê-lo tirado no amigo-oculto... Essa também é uma marca que Jesus nos deixou: "Amem os seus inimigos e orem por aqueles que os perseguem" (Mateus 5:44).
O que se realizou no natal, com a vinda de Jesus, dá todo sentido à vida, que se perde no tempo e espaço... Da sentido à minha vida tão pequena, que vislumbra a eternidade na minha relação com Deus. E dá sentido à minha vida tão turbulenta na minha relação com os outros, aprendendo, sempre aprendendo... a amar mais, porque Cristo me amou primeiro.
Pensando nisso, feliz natal!
quinta-feira, 16 de dezembro de 2010
Raizes...
16 de Dezembro de 2009:
"Acordei meio desinteressado com o dia hoje. Até que estava com disposição, mas não vi nada de especial que me atraísse nele. Fui comprar pão cedinho. O dia estava agradável... mas nada especial. Vim pro trabalho mais cedo, já que não tinha nada interessante praquele dia agradável. Cheguei e me distraí numa pasta de fotos de família que salvei aqui pra, de vez em quando, abrir e lembrar das raízes.
As raízes...
Não há nada de interessante fora do que nos sustenta. E há algo de muito interessante nisso! Eu acordei e assumi logo o meu lugar, o meu papel a representar, de uma identidade que construí desde as raízes até o dia de hoje!...
Eu via agora há pouco, entre aquelas fotos de família, as fotos de uma menina Gabriella... na verdade, só as raízes de Gabriella. Quem rega essas raízes? Quem sustenta? Alguém que se identifica na construção de outra pessoa. No contar dos dias e dos anos, na monotonia desinteressante da vida rotineira, nossa identidade se constrói em torno do outro.
Não sei ao certo se estou celebrando a contagem dos seus dias ou dos meus. Mas na sequência dos seus dias, construí a minha identidade. E neste sentido comunitário da vida, o dia fica muito interessante!
Parabéns!"
(Mensagem de aniversário, de filho pra mãe.)
domingo, 12 de dezembro de 2010
Contra-tradição: dilemas sociais...
Nossas contradições compõem um processo de evolução social que percebo bem de perto nos dilemas da minha vida profissional, como assistente social. A noção dos processos dialéticos de desenvolvimento de sociedade pode nos ajudar a entender isso. Sem complicações, basta ler no Aurélio. “Contradição: (...) 4. Filos. Caráter essencial de tudo que é real: aquele que revela que cada coisa que é só se compreende pela negação de algo que a precedeu”. Ou seja, uma suposta verdade só existe em negação a outra que a precede. E a segunda verdade já precede outra, a ser contradita... E isso realmente nos proporciona desenvolvimento. A contradição nos faz evoluir! Mas, perversamente, isso também ocorre nas verdades de elites predominantes sobre as minorias. Mais ainda, isso ocorre quando nos afirmamos superiores aos outros, reproduzindo desigualdade...
Aprofundando um pouco mais, com algumas “certezas”, do ponto de vista da dialética, da centralidade do trabalho no desenvolvimento da sociedade, me pus a conversar com um amigo de perspectiva antagônica, donde surgiu o debate de que não é o trabalho o grande propulsor de desenvolvimento na sociedade, mas o processo de negociação do produto do trabalho, como grande determinante da produção de valor. Por um lado, o trabalho agrega valor às coisas. Mas por outro, esse valor pode não significar nada, a depender da negociação deste produto. Esse dilema entre as duas visões são a base de amplas divergências ideológicas, políticas, econômicas e, portanto, sociais hoje. Acontece que as duas podem ser verdade... O trabalho realmente agrega valor às coisas, bem como a negociação também pode alterar o valor real das coisas (principalmente com uma publicidade tão evoluída...).
Ao final, então, me ponho a perguntar: o que é a verdade? Fato é que, independente se o trabalhador é valorizado ou se a liberdade de negociação é que o valoriza (ou desvaloriza), seja como for, o pensamento social ainda não conseguiu resolver o problema da desigualdade...
Aqui encontramos uma enorme limitação de nossas verdades... O processo dialético, de confronto histórico de verdades, proporciona amplas evoluções reflexivas de sociedade, mas não dá conta do processo de dominação presente em todas as relações sociais, e nele próprio... O processo de dominação é causa e conseqüência nas análises de sociedade. A gente estuda e critica a dominação já se sobre-afirmando em relação a outros (em muitos aspectos, não só ideológicos).
Pensando nisso, há alguns meses, eu observava o mundo parado a assistir a primeira Copa do Mundo na África, como um suposto marco, parcialmente que seja, de superação das distâncias sociais entre os povos. Daquela copa, entre os trinta e dois países presentes, saíra apenas um vencedor, supostamente melhor do que todos... Os outros trinta e um, que certamente deram algo de melhor, voltaram todos perdedores. São todos piores? Mesmo que fossem, no futebol, pra que esta organização mundial toda para afirmar quem é o melhor, ao mesmo tempo afirmando, declaradamente ou não, quem são os piores?
É isso que acontece intelectualmente, quando os que “pensam” são os que afirmam suas verdades sobre os que “não pensam”, no direcionamento da sociedade. Mais claramente, é o que acontece nas nossas disputas de empregos, no vestibular, e em muitas áreas da vida. É assim que acontece quando nos formamos, e entramos na guerra corporativista das profissões, as vezes defendendo-se e desconsiderando as relações de desigualdade reproduzida entre todas as profissões, e entre todas as pessoas... Como fugir disso? Acontece assim com cada um de nós, isolando-se ou confrontando socialmente, buscando sempre algo melhor, algo maior, que nunca encontramos em nós mesmos...
Ouvi, então, de um cientista social recentemente, que as tantas contradições da ciência social hoje, faz com voltemos sempre à tradição de seu pensamento. É... contradição também se faz com tradição...
sexta-feira, 19 de novembro de 2010
Diploma pra quê?
Aconteceu este ano uma visita do Ministro da Educação à UFV e, em uma solenidade em salão aberto, cheio de elogios ao governo em processo eleitoral, a representante dos estudantes, na mesa, encerrou sua exposição de reivindicações brandas dizendo que “sonhamos com uma sociedade onde o filho do pedreiro possa ser doutor...”.
Naquele mesmo salão, um critico social, Jessé Souza, falou meses antes que o eixo de toda análise de sociedade é o da lógica da dominação nas relações sociais. A copa do mundo figura bem isso. É fato, então, que todo sistema de normas (como o que regula a formação de “doutores”) corrobora esse processo de dominação ao controlar qualquer forma de perturbação da hegemonia nesta ordem subjetivamente dominadora. Assim, a universidade, na lógica das instituições normativas, cumpre papel de legitimar um processo de dominação entre segmentos “melhores” ou “piores” de sociedade por uns terem estudado e outros não (ou você não ostenta, também, um salário melhor ao obter diploma universitário?).
Em um período de industrialização no Brasil, desde a primeira metade do sec. XX, a divisão sócio-técnica do trabalho viveu um processo de regulamentação de profissões que teve desdobramentos perversos em termos de justiça e desigualdade sociais. Em resumo, só tinham acesso a benefícios e serviços previdenciários categorias reconhecidamente profissionais, regulamentadas pelo Estado (coitados dos músicos, que custaram a superar o estigma da malandragem..., e das empregadas domésticas, últimas a surgirem nesse hall, como se fosse apenas tarefas para incapazes... – Presto, aqui, uma homenagem à minha diarista que cumpre em um dia o que não consigo cumprir em uma semana, um mês ou em vinte e oito anos!). Isso gerou um processo chamado por Wanderley Guilherme dos Santos de “cidadania regulada”.
A profissão de jornalismo viveu processo inverso, recentemente. E a abolição da exigência de diploma para esses provoca relativos rumores corporativos de que a profissão perca respaldo técnico, em perspectivas como a de quem diz que “assim como para fazer um bom prato de comida, para fazer jornalismo não é preciso ter um curso universitário”. Há quem argumenta, então, que a universidade garante seguras oportunidades de aprendizado para exercícios de atividades de responsabilidades importantes. Já me questiono há muito tempo se o pedreiro ou o cozinheiro e, há menos tempo, o jornalista, não exercem atividades de fortes impactos sociais e responsabilidades. E se todos eles não passaram também por processos de aprendizagem científicos, técnicos e humanos... E será mesmo que, por exemplo, a hegemônica medicina, da medicação não assistida, como a que temos, os bem formados “doutores”, cumprem com zelo sua importante responsabilidade social? Por que nunca será abolida a exigência de diploma daquela profissão de elite? (já respondi). O que emperra tanto o nosso sistema público de saúde? Vale lembrar, aqui, das cuidadosas medicações maternais/familiares em saúde, ou os tradicionalíssimos cuidados naturais em saúde, difundidas por séculos no senso comum sem regulações “diplomoáticas”.
A ostentação de diplomas pensada na perspectiva da valorização da pessoa ou da regulamentação das profissões (e regulação da cidadania), só plausíveis aos que “estudam”, reproduz um processo de segregação e desequilíbrio no mundo do trabalho, determinantes na formação de uma sociedade desigual. E se é assim, diploma pra quê? Sonho com uma sociedade onde o filho do doutor possa ser pedreiro...
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